Para uma boa noite, Castro Alves

 

O Gondoleiro do Amor (Barcarola)

LeitorVora_gondoleirodoamor

    Teus olhos são negros, negros,
    Como as noites sem luar...
    São ardentes, são profundos,
    Como o negrume do mar;

    Sobre o barco dos amores,
    Da vida boiando à flor,
    Douram teus olhos a fronte
    do Gondoleiro do amor.

    Tua voz é a cavatina
    Dos palácios de Sorrento,
    Quando a praia beija a vaga,
    Quando a vaga beija o vento;

    E como em noites de Itália,
    Ama um canto o pescador,
    Bebe a harmonia em teus cantos
    O Gondoleiro do amor.

    Teu sorriso é uma aurora,
    Que o horizonte enrubesceu,
    -Rosa aberta com o biquinho
    Das aves rubras do céu.

    Nas tempestades da vida
    Das rajadas no furor,
    Foi-se a noite, tem auroras
    O Gondoleiro do amor.

    Teu seio é vaga dourada
    Ao tíbio clarão da lua,
    Que, ao murmúrio das volúpias,
    Arqueja, palpita nua;

    Como é doce, em pensamento,
    Do teu colo no languor
    Vogar, naufragar, perder-se
    O Gondoleiro do amor!?...

    Teu amor na treva é - um astro,
    No silêncio uma canção,
    É brisa - nas calmarias,
    É abrigo - no tufão;

    Por isso eu te amo querida,
    Quer no prazer, quer na dor...
    Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
    Do Gondoleiro do amor.

Se se morre de amor

LeitorVora_semorredeamor

Se se morre de amor! – Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebentar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes ao morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo, é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compreender o infinito, a imensidade
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores,murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

 

Gonçalves Dias

110 anos de Carlos Drummond de Andrade

 
LeitorVora_drummond
Foto: www.veja.abril.br

Se estivesse vivo, Carlos Drummond de Andrade, estaria comemorando a singela idade de 110 anos, muito bem escritos. Até quem não gosta de poesia ama Drummond.
Drummonde-se:

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Untouchable, a biografia de Michael Jackson, será publicada pela Companhia das Letras

LeitorVora_Untouchable

Untouchable: The Strange Life And Tragic Death of Michael Jackson (Intocável: A Vida Estranha e a Morte Trágica de Michael Jackson) é a biografia do Rei do Pop, e será lançada no Brasil pela Companhia das Letras.
Ainda sem título em português o livro, escrito por Randall Sullivan, um editor da revista Rolling Stone, proporciona aos leitores e fãs um retrato íntimo, inabalável e profundamente humano de um homem que nunca foi bem entendido pelos meios de comunicação, pelos fãs ou mesmo pelas pessoas mais próximas a ele.
Untouchable  leva os leitores a uma viagem até o mais profundo da realidade de Michael Jackson. Desde sua infância debaixo dos holofotes até sua ascensão à fama seguida da época de reclusão – quando perdeu a reputação - e depois o vaivém de seus últimos anos entre Califórnia, Oriente Médio, Irlanda e Las Vegas; o planejamento para recuperar sua fortuna e reputação com o álbum de retorno e uma série de 50 megaconcertos para os quais ele ensaiou até o dia de sua morte.
O Jackson que emerge destas páginas é um ao mesmo tempo ingênuo e profundamente astuto, um pai dedicado, cujas decisões paternas geraram um clamor internacional; um empresário astuto cujas falhas quase derrubaram uma megacorporação, e um narcisista inveterado que queria – mais do que qualquer outra coisa - uma vida normal e tranquila. Sullivan trás informações nunca antes disponibilizadas sobre os negócios, a disputa dos bens e as alegações de pedofilia que marcaram, de forma indelével, a reputação do astro. 
O resultado de tudo isso é um retrato notável de Jackson, um homem de contradições incontáveis e que, mesmo após sua morte, continua a reinar como o rei do pop.

A Letra Escarlate

 
Eu confesso: sou completamente apaixonada pelos clássicos. O mercado editorial se renova todos os dias e, ainda assim, sempre dou um jeito de ler uma história antiga, batida, e que, teoricamente, todos conhecem.
 
Um clássico pode ter várias facetas e, apesar de todos nós sabermos como termina a historia, o modo de aprecia-la pode mudar muito de uma edição pra outra. A releitura de um clássico depende da tradução, da edição, da época em que ela é publicada.
 
Mas não é esse o objetivo do artigo. Vou defender os clássicos em um outro post, hoje eu quero falar de um clássico que estou em cócegas para ler há algum tempo e que foi relançado, recentemente, pelo selo Penguin da Companhia das Letras, A Letra Escarlate.
 
É… eu sei, eu sei, isso é notícia velha mas, minha fila de leitura também está envelhecendo e tudo o que eu espero é conseguir ler tudo antes de morrer. Desejo, sinceramente, que meu corpo seja encontrado embaixo de um livro.
 
logo-companhia-das-letrasNo final de semana, li uma resenha muito boa feita do livro de Nathaniel Hawthorne e fiquei babando por isso, quando recebi o meu exemplar esta manhã, pacientemente expliquei aos outros livros que estão na fila, que eles terão que esperar mais um pouquinho.
 

 
Companhia das letras: divulgaçãoA história é situada na Boston puritana do século XVII. Separados da igreja Anglicana, os puritanos levavam o pecado muito a sério e uma mulher adúltera precisava ser punida. Era a lei. A punição para o adultério era receber a marca da letra escarlate, e viver sem poder esconder sua desonra.
 
Casada com um homem muito mais velho e desprovido da capacidade de amar, desonrada pela paixão que viveu com o pregador que é covarde demais para assumir seu amor pela Adúltera – como era considerada pela comunidade – a heroína Hester Prynne vai carregar seu estigma, aceita-lo como parte de si e, por fim, mudar seu significado para o mundo exterior.
 
‘Bora ler galera…

Estou Lendo

O Sonho de Matilde
Livia Garcia Roza
 
O vernáculo do pai, que mistura instrução com intuição em uma liguagem muito singular. A crendice da mãe, que fala sozinha e ora para a tia madrinha expulsar o Capeta da casa. A perfeição de Cristina até na hora de dormir, exemplo a ser seguido pelos mais novos. A falação de Matilde , a irmã devota. As brincadeiras de Mateus, o temporão. O sotaque caipira que não disfarça de onde vieram.
Neste delicioso e comovente romance, que se passa na década de 1960, Livia Garcia-Roza juntou diversas vozes para compor o retrato de uma família. Mas não se trata de qualquer família, e sim de uma especial: a Moreira. Afinal, cedo o pai ensinou que todos deveriam honrar a linhagem, "tínhamos que ser uma família de direitos, andar com a cabeça erguida, fronte altaneira e o pensamento limpo".
Como típica irmã que vê a mais velha como modelo, o sonho de Cristina passa a ser também o de Matilde: conhecer o Rio de Janeiro. Criadas numa cidade pequena, sem perspectivas, as duas compartilham o desejo de, passado o vestibular, cursar a universidade na cidade maravilhosa.
Contudo, o destino será traiçoeiro. Elas terão a oportunidade de realizar a viagem e conhecer a tão sonhada Copacabana, mas a experiência talvez não saia exatamente como planejaram.
 
(texto da orelha da capa)

Estou Lendo

O_MORRO_DOS_VENTOS_UIVANTESO Morro dos Ventos Uivantes
Emily Brontë
Lua de Papel

Na fazenda chamada Morro dos Ventos Uivantes nasce uma paixão devastadora entre Heathcliff e Catherine, amigos de infância e cruelmente separados pelo destino. Mas a união do casal é mais forte do que qualquer tormenta; um amor proibido que deixará rastros de ira e vingança. “Meu amor por Heathcliff é como uma força eterna, Eu sou Heathcliff”, diz a apaixonada Cathy.
 
O único romance escrito por Emily Brontë e uma das histórias de amor mais surpreendentes de todos os tempos, O Morro dos Ventos Uivantes é um clássico da literatura inglesa e tornou-se o livro favorito de milhares de pessoas.
 
(texto da contracapa)

Estou Lendo

orgulhoepreconceitoOrgulho e Preconceito
Jane Austen
Abril Coleções

“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de uma esposa.
Por pouco que os sentimento sou as opiniões de tal homem sejam conhecidos ao se fixar numa nova localidade, essa verdade se encontra de tal modo impressa nos espíritos das famílias vizinhas que o rapaz é desde logo considerado a propriedade legítima de uma das suas filhas.”
 
Dois primeiros parágrafos do livro. A julgar por estes parágrafos a leitura promete ser muito boa!!!

E, porque hoje é sábado, uma saudável dose de Vinícius….

 
DIA DE SÁBADO
Porque hoje é Sábado, comprei um violão para minha filha Susana, a fim de que ela aprenda dó maior e cante um dia, ao pé do leito de morte de seu pai, a valsa “Lágrimas de dor”, de Pixinguinha – e seu pai possa assim cerrar para sempre os olhos entre prantos e galgar a eternidade ajudado pela mão negra e fraterna do grande valsista…

Porque hoje é Sábado, desejarei ser de novo jovem e tremer, como outrora, à ideia de encontrar a mulher casada, de pés de açucena; desejarei ser jovem e olhar, como outrora, meus bíceps fortes diante do espelho…

Porque hoje é Sábado, desejarei estar num trem indo de Oxford para Londres e à passagem da estação de Reading lembrar-me de Oscar Wilde a escrever na prisão que o homem mata tudo que ele ama…

Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas caçadas luminosas da praia atlântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai…

Porque hoje é Sábado, desejarei receber uma carta súbita, contendo sobre uma folha de papel de linho azul a marca em batom de uns grossos lábios femininos e ver carimbado no timbre o nome Florença…

Porque hoje é Sábado, desejarei que a lua nasça em castidade, e que eu a olhe no céu por longos momentos, e que ela me olhe também com seus grandes olhos brancos cheios de segredo…

Porque hoje é Sábado, desejarei escrever novamente o poema sobre o dia de hoje, sentindo a antiga perplexidade diante da palavra escrita em poesia, e, como dantes, levantar-me com medo da coisa escrita e ir olhar-me ao espelho para ver se eu era eu mesmo…

Porque hoje é Sábado, desejarei ouvir cantar minha mãe em velhas canções perdidas, quando a tarde deixava um alto silêncio na casa vazia de tudo que não fosse sua voz infantil…

Porque hoje é Sábado, desejarei ser fiel, ser para sempre fiel; ser como o corpo, com o espírito, com o coração fiel à amiga, àquela que me traz no seu regaço desde as origens do tempo e que, com mãos de pluma, limpa de preocupações e angústia a minha fronte imensa e tormentosa…


Setembro de 1953

Extraído do livro “Para uma menina com uma flor” da Companhia das Letras

O Sonho de Matilde


Foi uma delícia ler este livro.
 
O Sonho de Matilde conta a história dos Moreira, uma família do interior de Minas Gerais cujo pai é um orgulhoso funcionário da Caixa Econômica Federal.
 
A narradora da história é a própria Matilde e ela é de uma inocência quase dolorosa. A história não conta exatamente quantos anos Matilde tem mas fica claro que ela não é mais uma menininha. Ela frequenta cursinho, está prestes a entrar pra faculdade. Se ignorarmos este fato pode-se facilmente acreditar que o relato pertence a uma menina com não mais do que doze anos.
 
Ambientado na década de 1960 o livro tem aquele potencial delicioso de nos fazer mergulhar em nossa própria infância. Eu não cresci nessa década, nasci quase 20 anos depois disso e ainda assim consegui resgatar os cheiros da minha infância; a importância que os mais velhos davam ao nome; o status que tinha um funcionário do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica; e o quanto era bonitinho uma menininha quietinha e delicada, orgulho dos pais, moça prendada.
Copacabana nos anos 1960
 
A moça prendada, maior orgulho dos Moreira era Cristina, irmã de Matilde e, o sonho de Matilde era ser exatamente como a irmã. Juntas elas dividiram um outro sonho: o  de sair de Minas Gerais e ir para o Rio de Janeiro, conhecer a praia de Copacabana. Elas já tinham tudo planejado: o curso universitário, o casamento, o número de filhos.
 
Foi quando o mundo de Matilde começou a desmoronar e ela viu seus sonhos, um a um, serem roubados.
Acho que o maior mérito desse romance de Livia Garcia-Roza é o de conseguir descrever com perfeição o que é crescer. A transformação da menina em mulher. O momento exato em que é preciso abrir mão dos sonhos e aceitar o que a vida te trouxe e fazer o melhor com isso.
Vale muito a pena ler.

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A foto da Praia de Copacabana foi copiada do site http://www.copacabana.com/fotos, que é lindo. Visitem.

A Hospedeira

O artigo que segue é apenas um teaser, não uma resenha. Não há spoiler.
 
Stephenie Meyer apareceu de repente, com uma história sobre vampiros vegetarianos e apaixonados e em pouco tempo conquistou legiões de fãs adolescentes e alguns fãs não tão adolescentes assim. Com um estilo de escrita muito simples, e ao mesmo tempo bastante prolixo, Stephenie não segue nenhum manual do tipo "como escrever bem" nem nada disso. Ela faz tudo “errado”, seus livros são cheios de clichês, palavras repetidas,   e lugares-comuns e, mesmo assim, é impossível interromper a leitura de cada um deles enquanto não se conhece o final.
 
Pode-se dizer muitas coisas sobre Stephenie Meyer, menos que ela não saiba contar uma história.
 
A Hospedeira, publicado no Brasil pela Editora Intrinseca, é exatamente assim: extravagante no argumento, simples na escrita, e absolutamente viciante.
 
Na história, o planeta foi invadido por um inimigo silencioso que é implantado nos corpos dos humanos, e que toma o lugar de sua consciência, suprimindo o livre-arbítrio. Isso aconteceu porque o homem ficou muito violento e estava destruindo o planeta e a si mesmo.
 
Ser implantado em humanos selvagens e adultos, entretanto, não é fácil para as Almas - esse é o nome dado aos alienígenas implantados - que precisam aprender a conviver com a grande quantidade de sentimentos e sensações humanas até então desconhecidos.
 
Quando a Alma, chamada Peregrina, foi implantada em Melanie Stryder, encontrou uma lutadora que se recusou a desaparecer. Atormentada pelas visões de Jared e Jamie, namorado e irmão de Melanie, Peregrina se põe em risco ao atravessar o deserto em busca desses dois amores.
 
A partir daí se desenrola uma história ótima em que Melanie tenta se libertar para ficar com seu Jared e Peregrina tenta provar que é uma alma decente e boa e que merece ter uma vida própria.
 
Duas mentes habitando o mesmo corpo. Guerra e paz, amor e desejo, medo e culpa ao mesmo tempo e como somente Stephenie Meyer é capaz de descrever.
 
Ficha Técnica:
Título: A Hospedeira (The Host)
Autor: Stephenie Meyer
Tradução: Renato Aguiar
Páginas: 560
Editora: Intrinseca
Preço: 14,90

Estou Lendo

 
A Sombra do Vento
Carlos Ruiz Zafón
SUMA de letras


Numa madrugada de 1945, em Barcelona, Daniel Sempere é levado por seu pai a um misterioso lugar no coração do centro histórico: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Lá, o menino encontra A Sombra do Vento, livro maldito que mudará o rumo de sua vida e o arrastará pra um labirinto de aventuras repleto de segredos e intrigas enterrados na lama obscura da cidade. A busca por pistas do desaparecido autor do livro que o fascina transformará Daniel em homem ao iniciá-lo no mundo do amor, do sexo e da literatura.
Numa narrativa de ritmo eletrizante que mistura gêneros como o romance de aventuras de Alexandre Dumas, a novela gótica de Edgar Allan Poe e os folhetins amorosos de Victor Hugo, Carlos Ruiz Zafón mantém o leitor em estado de contínuo suspense. Ambientada na Espanha franquista da primeira metade do século XX, entre os últimos raios de luz do modernismo e as trevas do pós-guerra, a Sombra do Vento é uma obra sedutora, comovente e impossível de largar. Uma grandiosa homenagem ao poder místico dos livros..

(texto da contracapa)

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Diários do Vampiro

Vou confessar que tenho o livro há quase um ano.
Depois que  me rendi a Crepúsculo, de Stephenie Meyer, fiquei bastante curiosa com relação aos vampiros modernos – aqueles diferentes dos que eu conheci com Anne Rice e Bram Stoker. Vampiros que se apaixonam, que tentam não se render às trevas. Vampiros bonzinhos!!! Imbuída desse espírito, e no rastro de Crepúsculo, comprei os dois primeiros volumes de Diários do Vampiro mas acabei encostando na minha estante.


Na segunda feira, quando comecei a ler duas coisas aconteceram: a primeira é que não consegui parar de ler antes de terminar os dois volumes; a segunda é que percebi que a história é, no argumento, basicamente igual a Crepúsculo. Está tudo lá: o vampiro bonzinho que quer abandonar as trevas, decide conviver junto aos humanos bebendo apenas sangue de animais e se apaixona pela colegial inocente; a colegial inocente; os segredos; a capacidade da colegial enxergar a bondade através dos olhos do vampiro mesmo tendo certeza – intuitivamente – de que ele é perigoso; o porsche 911;  a Itália; a cidade pequena e obscura onde tudo acontece; está lá até mesmo o crepúsculo que deu nome ao primeiro livro de Stephenie Meyer. 


Como achei as coincidências muito grandes, primeiro fui conferir o Copyright do livro e vi que a história original de Diários do Vampiro é de 1991, enquanto a de Stephenie Meyer é de 2005. Então, pesquisei no Google. Ao que parece a própria autora de Diários do Vampiro acusou Meyer de plágio. Não tive  curiosidade suficiente para descobrir o que aconteceu depois, se há processo em andamento ou se ficou na bate-boca na imprensa, mas a uma conclusão eu cheguei: a vida de Smith deve ter melhorado muito depois do sucesso da saga de Stephenie Meyer. Seus livros ganharam uma série para a televisão e foram traduzidos em diversas línguas. Aqui no Brasil eles chegaram em 2009 pelo selo Galera, da Record.



Até onde eu li de Diários do Vampiro, as semelhanças param no argumento. As histórias em si são muito diferentes uma da outra. Os vampiros de Smith são muito mais sombrios, mais próximos do que a literatura tradicional já nos apresentou como vampiros, eles têm fraquezas, bebem sangue e são mesmo malvados. Enquanto que nos livros da Stephenie Meyer, eles mais parecem personagens de um romance estilo “Julia/Sabrina/Bianca” (se você nunca leu um Julia, Sabrina ou Bianca, clique aqui e descubra o que é).
 

As duas séries têm seus méritos. J.L. Smith é sem dúvida uma escritora melhor que Meyer, mas Meyer soube criar seus personagens. É muito mais fácil sentir simpatia – e até empatia em alguns momentos - por uma desastrada Bella Swan do que por uma loira gostosona, rainha da escola e super-popular que, apesar de ter tudo, não está contente com o que tem. Isso pra não falar no Edward Cullen. Um simples boa noite bem dito pelo Cullen em Crepúsculo faria o herói da história de Smith, Stefan, se encolher e chorar de vergonha.
Mas agora, vamos esquecer as comparações e falar do livro.

* Alerta de Spoiler: o texto a seguir contém informações sobre o enredo.

Diários do Vampiro - O Despertar
Conta a história de Elena. Estudante bonita e popular. A realeza como ela mesma gosta de se considerar. Amada e invejada por todos na escola mas infeliz. Sente que algo lhe falta até conhecer Stefan. Bonito, rico e misterioso, Stefan não parece querer fazer parte de seu séquito de admiradores e isso deixa Elena inconformada além de apaixonada.
Stefan é um vampiro atormentado por sua natureza maligna e está tentando levar uma vida normal, misturado aos humanos. Quando percebe Elena, se encanta imediatamente por sua força interior – sim, ele também lê as pessoas, mas somente suas auras – no entanto a semelhança física de Elena com um amor perdido há muitos séculos faz com que ele se afaste.
Como era de se esperar os dois acabam ficando juntos. A história é muito bem costurada e a autora J.L. Smith sabe fazer bem o trabalho de segurar o leitor preso às páginas de seu livro mas falta um pouco de sal ao casal principal. Elena não desperta empatia, por ser popular e mimada e Stefan é um ‘idiota sofredor’. Toda mulher já teve um namorado assim: sofredor.  Um coitadinho procurando por um colo quente onde se encostar. A história de amor dos dois não convence  mas os demais elementos do livro ajudam a criar um suspense juvenil delicioso: o corvo negro que vigia Elena constantemente e a paranormalidade de Bonnie – uma das melhores amigas de Elena – são alguns desses elementos.
Quase no final do livro, revela-se Damon. O irmão malvado de Stefan. Damon se mostrou um personagem bastante interessante e sensual também. Há um confronto entre os irmãos. Damon vence. Stefan desaparece e Elena vai procura-lo e esse é o gancho para o próximo livro O Confronto.

Diários do Vampiro - O Confronto

O segundo livro da série Diários do Vampiro é melhor que o primeiro. Se afastou um pouco do casalzinho sem sal e se focou mais no sobrenatural.
A história começa com a busca de Elena por Stefan, que desapareceu depois de um confronto com seu irmão Damon.
Damon passou a assediar Elena com mais veemência o que rendeu trechos muito sensuais.Damon é muito mais interessante do que o irmão: charmoso, sexy, inteligente e poderoso. Extremamente poderoso e faz com Elena aquele joguinho delicioso de "quem pode mais" na hora do flerte.
O personagem Elena também deu uma guinada. De rainha do colégio passou a pária social e ela precisou se adaptar a esta nova situação o que fez seu caráter aparecer, e foi bom, ela ficou bem mais interessante.
Como trama paralela tem o plano de Caroline (ex-melhor amiga de Elena) e Tyler (que levou uma surra  de Stefan no primeiro livro depois que tentou violentar Elena) para expulsar Stefan da cidade e acabar de vez com a vida social de Elena no colégio.
Stefan explica muitas coisas sobre os vampiros para Elena e dá a ela munição para combater Damon, o que ela, de fato, não quer.
Há cenas ótimas que remetem o leitor aos vampiros originais que têm poderes de hipnose e conseguem controlar os humanos, inclusive nos sonhos. Só senti falta da Bonnie. Com seus poderes paranormais ela poderia ter sido mais explorada nesta parte da história.
Não tenho os outros livros da série ainda. Mas vou lê-los em breve, e conto depois.

Ouvir estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Olavo Bilac
Poeta Brasileiro

Estou Lendo

O que toda mulher inteligente deve saber
Steven Carter & Julia Sokol
Editora Sextante
 
Este livro trata de um tema fundamental: a auto-estima nos relacionamentos amorosos.
As mulheres inteligentes sabem que existem duas maneiras de aprender a lidar com os homens - uma fácil e outra difícil. O problema é que a maioria delas escolhe a segunda forma, passando por experiências que deixam cicatrizes, mágoa, raiva e insegurança.
O objetivo de Steven Carter e Julia Sokol é justamente ensinar um caminho mais simples - e menos traumático - pra alcançar essa sabedoria.
Baseados em experiências de pessoas que, como nós, já investiram em relacionamentos que não deram certo, perderam noites chorando e esperando telefonemas que nunca receberam, eles dão valiosas dicas para que você evite os mesmos erros.
Qualquer mulher que tenha se apaixonado pelo menos uma vez na vida vai se reconhecer nessas histórias, rir de si mesma e descobrir que o amor verdadeiro é muito mais do que o coração disparado e pernas bambas. Com a ajuda deste livro, você vai aprender também:
 
  • Os 11 mandamentos da mulher inteligente
  • Como distinguir os homens certos dos errados
  • Quando acreditar no que ele diz e quando cair fora
  • Como identificar um homem potencialmente violento
  • Como lidar com uma separação
O que toda mulher inteligente deve saber vai ajudar você a escolher relacionamentos que lhe permitam crescer e sobretudo tornar-se a pessoa mais importante de sua própria vida.

(texto da contracapa)
 

Dicionário Voraz: Vernáculo

ver.ná.cu.lo

adjetivo masculino
1. Próprio do país a que pertence, nacional.
2. Genuíno, puro (figurado), oposto a entrada de estrangeirismos (lingüística).
3. Correto, puro no falar e no escrever
substantivo masculino
1. Língua própria de um país, em estado puro, sem mácula
2. Linguagem popular, cheia de gírias.
 
O termo tem origem no latim vernaculum, proveniente de verna: assim era denominado o escravo nascido na casa do senhor.

Vai Dormir P*##@

A Sextante lançou no dia 19 de julho de 2011 – sim, já faz um ano - o livro “Vai Dormir Porra" do escritor norte-americano Adam Mansbach.

A edição é linda, tem capa dura e ilustrações primorosas. O leitor desavisado pode até pensar que se trata de um livro para crianças: ele se parece com livro de crianças, tem ilustrações dignas de olhos exigentes e infantis, e está cheio de versinhos rimados.
 
Considerado polêmico, o livro conta a história de um pai que não consegue fazer a filha dormir. Utilizando-se de rimas e palavrões o autor dá um motivo para os pais cansados rirem um pouco da luta diária que é colocar seus filhos na cama.
O vento sopra, suave, nos campos em flor.
Os ratos estão na maior modorra.
Minha paciência está se esgotando, amor.
O que mais você quer? Vai dormir, p*##@
 
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Indicações: Altamente recomendando para pais desencanados que querem rir um pouco de sua própria rotina.
Contra-indicações: Contra indicado para aqueles pais que consideram grosseria dizer que o cocô de seu filho fede como o de qualquer outra criança e, para jovens idealistas que ainda pensam que ser pai ou mãe é algo próximo da santidade e que um pai deve nada menos do que dedicação total e irrestrita a seu filho.
 
Pessoalmente se eu pudesse definir este livro com apenas uma palavra seria: catártico. Em tempos de 'politicamente correto' onde tem sempre alguém pronto pra apontar o que é certo ou errado mesmo dentro de nossas próprias casas, é um alívio poder ler um livro que mostra que os outros pais também perdem a paciência.
 
Ficha Técnica
Título: Vai Dormir Porra
Páginas: 32 páginas
Autor: Adam Mansbach
Ilutrações: Ricardo Cortés
Tradução: Angélica Lopes
Gênero: Humor, Sátira
Editora: Sextante
Preço: R$-19,90

BFF

Ontem foi dia do amigo. Um pouco atrasada mas não tarde demais, fiz uma seleção do que considero os melhores amigos EVER em alguns recentes sucessos da literatura. Com amigos assim os inimigos são totalmente dispensáveis.


4o. Lugar: Harry, Rony e Hermione (Harry Potter, J.K. Rowling, Editora Rocco)
Eles se conheceram crianças, na escola, tudo normal e bonitinho. Seria muito normal se tornarem amigos para sempre, e até manterem contato durante a velhice, nada incomum exceto pelo fato de que um deles  é constantemente perseguido por uma força do mal que não deve nunca ser nomeada e com isso muita gente ao seu redor acaba morrendo, ou desaparecendo ou sendo perseguido. Sim, eu sei, o pobre Harry é apenas uma criança e não tem culpa dos infortúnios de sua vida mas, ele cresce durante a história, e quanto mais ele cresce, mais os problemas aumentam. E, pra piorar, nos filmes só dá o Harry, enquanto os amigos que o apoiam toda a vida são reduzidos a simples coadjuvantes. Haja auto-estima. Só sendo muito amigo.

3o. Lugar: Alice Cullen e Bela (Crepúsculo, Stephenie Meyer, Intrinseca)
Uma é uma vampira vegetariana feita de pedra e fria como o gelo. Outra é uma humana adolescente, frágil e com um cheiro irresistível de comida de vampiro. Tem como dar certo??
Para Meyer tem. Elas convivem, passeiam, fofocam e penteiam o cabelo uma da outra enquanto trocam segredos. É o equivalente a dizer que uma cobra criou um sapo de estimação.

2o. Lugar: Roland Deschain, Jake Chambers, Eddie Dean e Odetta Holmes (A Torre Negra, Stephen King, Editora Objetiva)
Roland sequestrou os outros três de seus mundos e os carregou para uma realidade alternativa onde eles não tinham comida nem água à disposição e estavam sujeitos a perigos diários como lagostas assassinas, robôs psicóticos, sequestradores de crianças, assassinos, bruxas e demônios. Ainda  assim todos os quatro viveram  juntos e felizes, e ficaram lado a lado até o derradeiro fim quando Roland finalmente chegou a Torre Negra.
A Sindrome de Estocolmo realmente não tem limite nessa história.

1o. Lugar: Melanie Stryder e Peregrina  (A Hospedeira, Stephenie Meyer, Intrinseca)
E em primeiríssimo lugar, com honras, tive que trazer mais um livro da Stephenie Meyer. Duas mulheres que dividem não só as roupas e o corte de cabelo. Elas dividem o corpo, os pensamentos, o irmão, e até os homens. Hein? Vivem um quarteto amoroso onde, incrivelmente, ninguém trai ninguém e todo mundo ama todo mundo sem ninguém ficar magoado.
Elas são mais do que civilizadas. Na verdade, qualquer uma delas poderia ser canonizada tamanha abnegação em nome da amizade.

Para uma menina com uma flor

Há muitos anos atrás, uma década e meia, em um canteiro de uma avenida de uma cidade qualquer estávamos, meu amor e eu, sentados. Conversando. Eu me aninhava em seus braços de costas pra ele, encaixada entre suas pernas, de modo que sua boca ficava muito próxima de minha orelha.
Ele tinha uma voz deliciosa. Especialmente aquela noite porque precisava sussurrar. Em algum momento durante nossa conversa ele recitou uma declaração de amor adaptada de um texto de Vinicius de Moraes. Foi tão lindo quanto inesperado.
Nosso amor foi eterno enquanto durou, e mesmo tendo a vida e a morte nos separado essa lembrança de amor nunca me abandonou. Ainda hoje quando leio o texto consigo escutar sua voz nitidamente, como se sussurrasse ao meu ouvido.
O texto se chama "Para Uma Menina Com Uma Flor" e foi retirado da coletânea de mesmo nome lançada pela Companhia das Letras em 1992.
 
 
“Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater o pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você pra trás transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima como uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações, mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar pra trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
 
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração, e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as  outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita pra você, “Minha Namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias – sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço e o mato a nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aleia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.”

Amada

amada

Céleres, as estrelas caem do céu.
Tu as recolhes, uma a uma,
- ó segadora de luzes!

Ilumina com elas a noite
de tua cabeleira longa.
E fica assim, imóvel, risonha,
diante de mim deslumbrado
- mito cintilante do amor.

Mário da Silva Brito

 

*A imagem é do site http://www.overmundo.com.br

Palavra da Semana: Voraz

Para inaugurar a coluna Palavra da Semana tenho que começar com a que dá nome ao blog: Voraz.
Considero voraz uma das palavras mais sensuais do nosso vocabulário. Quando em penso em voracidade penso em peles quentes se tocando, em suspiros, em suor e em beijos apaixonados e tudo isso ao mesmo tempo. É claro que, em seu significado original, voraz não tem nada de sensual e essa é apenas uma impressão pessoal minha – e que continua martelando em minha cabeça enquanto escrevo estas palavras.

Voraz (vo.raz) é um adjetivo que significa:

1. Devorador, capaz de sorver e engolir irreprimivelmente; ÁVIDO; SÔFREGO; EDAZ (fala sério!!! isso é tremendamente sensual, não é?)
2. O mesmo que glutão
3. Fig. Ambicioso, louco por conquistas, riquezas (carreirista voraz)
4. Fig. Destruidor, corrosivo 
Fonte: http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&palavra=voraz

Aplicação em frase: Ela tem um apetite voraz.

Citação: "O que normalmente se chama de amor é, de facto, o desejo de satisfazer um apetite voraz com uma certa quantidade de delicada carne branca humana" (Henry Fielding, no livro Tom Jones)